segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Futebol e polítca: uma relação brasileira mais que explícita

Santinhos de ex-jogadores e esportistas nas eleições gerais de 1986.

 "Futebol e política (e religião) não se discutem", assim diz um famoso mantra nacional. O fato é que a relação do futebol com a política no Brasil transcende gerações e antecede o discurso de que não se deve misturar o esporte bretão a política. No Vitória em específico a política sempre esteve presente na vida do clube. Desde sua fundação até a década atual não faltou no conselho do clube políticos entre a dirigência e o conselho do Leão da Barra. O fato vivenciado no rubro-negro ao longo dos seus 118 anos faz também parte de outros diversos clubes do futebol nacional. De Norte a Sul a cartolagem política se fez presente no esporte mais querido da nação, seja por paixão ou promoção eleitoral.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Popó... o artilheiro baiano que driblou o racismo

Popó pela Seleção Bahiana em 1934.


 Se na década de 10 o futebol baiano era um reduto de racismo, proclamado pelos times da elite, dentre os quais o próprio Vitória, essa situação começaria a cambiar na década seguinte. Quando a Liga Bahiana de Desportos Terrestres passou a permitir a entrada de jogadores negros na competição, o próprio Leão da Barra se opôs a ideia, e assim acabou ficando recluso do futebol no restante da década. Em revés disso, o Ypiranga fundado em detrimento do aniversário da Independência do Brasil, por jovens que estavam ás margens da sociedade, nasceu com um espírito de revolucionar o futebol local.

 É nesse cenário, num misto de elitismo e popularidade que se encontrava o futebol baiano no início do século 20. O Vitória que nascera como clube de cricket, era discriminado por rapazes ingleses, e tal discriminação segue já no futebol. Por via disso, um rapaz negro, chamado Apolinário Santana ganhara destaque na história do desporto baiano e nacional. Ele era conhecido nos gramados como Popó, fora dele seu nome de batismo já nomeou rua em Salvador e também a taça do Baianão de 2002, ano em que o rubro-negro levantou o caneco. 
Um esboço do Craque do Povo com a camisa do Ypiranga.

 Popó se destacou no em clubes como o Botafogo-BA, São Benta-BA, Bahiano de Tênis... mas foi com a camisa do Ypiranga seus maiores feitos. Não é atoa que é até hoje o maior ídolo do clube, e também na época era o craque preferido de Jorge Amado. Tal como o escritor, ele era adorado também pela beata Irmã Dulce. Os feitos de Popó não se resumiram aos títulos, foi pioneiro ao se tornar o primeiro jogador negro de destaque nacional, e foi o Ypiranga também um clube pioneiro no quesito do ingresso dos negros no futebol, fato que ocorreria com o Vasco da Gama em seguida. Em campo, uma de suas maiores façanhas foi quando em um amistoso contra o Fluminense no Campo da Graça, marcou os cinco gols da vitória aurinegra em 5 a 4. Os jornais cariocas noticiavam no dia seguinte: "Popó 5 x 4 Fluminense". E dessa forma, qualquer outro jogador que se destacasse em um confronto diante do tricolor era apelidado de Popó. 

 Com a camisa do Vitória, Popó jogou somente duas partidas. A primeira ocasião foi 05 de abril de 1923, quando o São Bento o emprestou para o Leão jogar um amistoso contra o Fluminense. É dessa forma, que Apolinário Santana atravessou barreiras no esporte bretão. O Vitória que anos antes negava os futebolistas negros em sua liga, recebia agora um destes de braços abertos. E isso contribuiu para que portas fossem abertas para outros futebolistas negros, tanto no Vitória como no futebol baiano. Tais quais como Bahianinho, Siri, Juvenal e por aí seguindo. No amistoso disputado em uma quinta-feira na Graça, Popó marcou de pênalti pro Vitória e Coelho fez pro Fluminense, tendo o jogo terminado em 1 a 1. Mais de dez anos depois, em 20 de março de 1934, outro amistoso reuniu Popó e o Vitória. Novamente na Graça, pra um público de 335 espectadores, Raul Coringa e Popó - de novo de pênalti - marcaram na vitória em 2 a 1 sobre a Seleção Paulista, que naquele ano ainda viria a ser vice-campeã nacional para a Seleção Bahiana. Pelo triunfo diante do time da Pauliceia, o Vitória ainda foi presenteado com uma taça.

 A popularidade do atleta ia as alturas. Recebeu alcunhas como "Terrível" e "O Craque do Povo". Mas nem tudo foram flores. Popó encerrou a carreira em 1937, tendo sido seu último clube o Madureira-RJ, e terminou a carreira de jogador já pobre, pedindo esmolas no entorno da Fonte Nova. O fato se assemelha ao destino de outro jogador negro do futebol baiano. Perivaldo, ex-atleta do Bahia, que desde 2014 trabalha no Sindicato dos Atletas de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Saferj), viveu nas ruas de Lisboa como sem-teto até 2013, tendo de vender roupas usadas para se sustentar. Popó que depois dos tempos áureos nos gramados tornou a viver a margem da sociedade, morreu nesta mesma data, 17 de fevereiro, no ano de 1955.

Poemas:

Jogadores?! Nem se conta!
Mas foi o rei, isto é sabido,
Apolinário Santa
Popó seu apelido
Foi Botafogo e Ypiranga
Não brigava ou tinha zanga
Era um Deus enaltecido 
(Por Edson Bulos)

Chuta, chuta, Popó chuta
Chuta por favor
Mela, mela, mela, mela
Mela e lá vai gol
(Cantiga junina soteropolitana da primeira metade do século 20. O termo 'mela' significa drible.)

1987.
Estava em Salvador.
Cascavilhando a mim mesmo.
Cidade alta, velha pensão. 
Um quartinho onde viveu o jovem Jorge Amado.
Paisagem diferente da mansão á beira mar onde morreu.
O homem que era nada. 
O homem que tornou-se cravo e canela. 
Lembro que me emocionei na paisagem do escritor ainda moço.
E fiquei olhando para aquele mar de todos os santos e comunistas.
A vida é o Pelourinho da alma.
Dona Flor?
O remédio.
Durante minha estada em Salvador. 
Futebol era assunto de conversa.
Popó!
Um senhor de cabelos brancos e cigarro nos lábios
me contou a seguinte história:
"Popó!"
Salvador de todos os santos e negros era branca.
Pelo menos nos times de futebol. 
Até chegar o Popó.
Popó de habilidade incomparável.

Jorge Amado gostava da bola.
De política. 
Mas como futebol podia ser branco?
O Ypiranga se revolta.
"Trabalhadores de todo mundo, jogai bola"
Salvador assiste horrorizada a plebe rude fazendo gol.
Jorge Amado se veste de amarelo.
Naquela mesma casa pobre.
Olhos postos no mar.
Popó marcando gols.
Jorge Amado não resiste.
Campo da Graça.
O jovem escritor grita gol de Popó.
Ao seu lado.
Uma menina e seu pai.
Pulam em delírio.
Jorge Amado se abraça aos dois.
O comunista e a santa.
Não resisti e perguntei:
"Santa?"
O velho senhor de cabelos brancos e cigarro nos lábios, sorri.
"Pois é.... Irmã Dulce já era torcedora do Ypiranga!"

Escureceu.
Já não havia homem velho.
Já não havia cigarro.
Apenas o mar da infinita Salvador. 
Voltei caminhando para a pousada. 
O farol me indicando o descaminho.
Eu e meus pensamentos.
O futebol era Dona Flor e seus dois maridos.
Terra de comunistas.
E santos.
Todos os santos...

(O Comunista e a Santa, de Roberto Vieira)



Texto: Milton Filho

sábado, 15 de outubro de 2016

Paul Robeson... de esportista a ativista



 É evidente que os movimentos de cunho anti-racista nos Estados Unidos do século XX foram bastante influenciados pelo socialismo. Os conflitos raciais que se acentuavam no começo da era novecentista se estenderam por longas décadas, tendo seu ápice com as manifestações de Luther King e os Panteras Negras. Muito antes disso, revoltas como a Rebelião de Omaha foram marcos da história estadunidense, e numa época onde a população negra era segregada, tendo de se ater aos padrões da sociedade americana, um afro-americano de Princeton foi em contrapartida de todo o nacionalismo, destacando-se pela luta de direitos civis.

 Paul Robeson nasceu em Princeton em abril de 1898, sendo o caçula de cinco irmãos. Filho de um ex-escravo fugitivo e de uma mãe que vinha de uma família abolicionista, aos 17 anos ele ganha uma bolsa de estudos na Universidade de Rutgers, na qual praticou esportes como beisebol, basquete e atletismo. Dali sofrera com o racismo dos colegas de equipe, embora ele tenha atuado por duas equipes de futebol americano, a Akron Pros e a Milwaukee Badgers. No entanto, seu nome só foi introduzido no salão de futebol da faculdade cerca de vinte anos após a sua morte.
Como jogador de futebol americano na época de faculdade.

 Como estudante da Faculdade de Direito de Columbia, Robeson conheceu Eslanda Cordoza, com que se casou. Eslanda também negra, foi pioneira ao ser a primeira afro-americana a dirigir um laboratório de patologia. O marido por sua vez, já trabalhando como ator, viria a ser o primeiro negro a interpretar o papel de Otelo, na peça de Shakespeare. Acontece que enquanto trabalhava com a advocacia, o ex-esportista foi desacatado por um secretário branco e passou a trabalhar com artes para difundir a cultura africana e afro-americana. Sendo assim, entre as décadas de 1920 e 1930, ele atuou em diversos filmes e chegou até a ser condecorado como melhor ator em um festival de 1944. Ao viver na Europa no fim dos anos 20, ele constatou que o racismo não era algo tão feroz no Velho Continente como era em seu país natal.

  O fato alertou Robeson para as adversidades que o racismo trazia. Foi dessa forma que ele ingressou no ativismo político, apoiando o Pan-africanismo no auge de sua carreira artística, cantando em prol de movimentos sociais e de trabalhadores em 25 línguas pelos EUA, URSS, África e Europa. Com o sentimento antifascista, ele mantinha amizade com a anarquista Emma Goldman e chegou a doar a renda de um festival para povos judeus refugiados do nazismo. Em 1937 participou de um comício antifascista na Guerra Civil Espanhola onde disse: "O artista deve optar por lutar pela liberdade ou escravidão. Eu fiz minha escolha. Eu não tinha alternativa".
Paul Robeson na União Soviética.

 Quando conviveu com soviéticos nos anos 30, Robeson foi tratado com dignidade, tendo sido adorado por moscovitas. Na capital Moscou, ele estudou russo, assim como seu único filho Paul Robeson Jr. que lá morou com a avó. Ele voltara aos Estados Unidos por volta de 1943, época em que se viu discutindo com funcionários do governo americano. Voltado contra o machartismo e as doutrinas de opressão que os cercava, Paul Robeson chegou a ser investigado pelo FBI e teve seu passaporte apreendido em 1950. Isso não o impediu de ser homenageado por soviéticos em 1952 com o Prêmio Lenin da Paz, juntamente com a brasileira Eliza Branco.
Robeson em uma festa da embaixada soviética nos EUA, em 1950, quando se comemoravam 33 anos da Revolução Russa.

 Em 1958 escreveu sua autobiografia na qual fez importantes declarações acerca do socialismo, como: "Em muitas ocasiões manifestaram publicamente a minha crença no socialismo científico, a profunda convicção de que para todos a humanidade de uma sociedade socialista representa um avanço para um estágio superior de vida - que é uma forma de sociedade que seja econômica, social, cultural e eticamente superiores a um sistema baseado na produção para o lucro privado... o desenvolvimento da sociedade humana, de tribalismo ao feudalismo, o capitalismo, o socialismo- é provocada pelas necessidades e aspirações da humanidade por uma vida melhor." e também: "A democracia não pode sobreviver em uma América racista".

 Paul Robeson veio a falecer em janeiro de 1976 na Filadélfia vítima de um derrame cerebral, onze anos após a morte de sua esposa Elanda.

"Você
Paul Robeson,
defensor do pão do homem,
honra,
luta,
esperança.
Luz do homem,
filho do sol,
o nosso sol,
sol do subúrbio americano
e das neves vermelhas
dos Andes:
você guarda a nossa luz

cante,
camarada,
cante,
irmão da terra,
cante,
bom pai de fogo,
cante para todos nós..." (Ode a Paul Robeson, por Pablo Neruda)

Paul Robeson cantando a versão em inglês da canção russa Polyushko Polye, música criada em plena Guerra Civil Russa:


Robeson cantando o hino da União Soviética em inglês :


                                                                                                                                                             Por: Milton Filho                                                                                                                                                        

domingo, 11 de setembro de 2016

Petkovic: o ídolo socialista (?)

11752565_701486076622179_4644044255721354768_n
Petkovic, charge de Vini Oliveira. 

 Dentre a grande quantidade de ídolos que o Vitória obteve ao longo de sua história secular, Dejan Petkovic foi com certeza um dos que mais se destacaram. A aproximação do craque, que completou 44 anos ontem, com o Vitória começa antes mesmo dele vestir a camisa rubro-negra em Salvador. Foi na Espanha, que jogando pelo Real Madrid B, Pet marcou num amistoso contra o Leão e ajudou os merengues na estrondosa goleada por 5 a 1. Esse jogo procedeu na sua contração e sua vinda para o Brasil, onde deslancharia nos gramados. Mas sua história com o socialismo, começa ainda antes do Vitória e do Real Madrid.

 Acontece que o Pet nasceu em 1972 Majdanpek, uma pequena da antiga Iugoslávia socialista, localizada na República Socialista da Sérvia, perto da fronteira com a Romênia. Na época de seu nascimento o líder iugoslavo ainda era o Marechal Josip Broz Tito, que em 1945, junto dos partisans (guerrilheiros) livrou o país das garras do fascismo durante a segunda guerra, em seguida proclamando-o socialista.
O jovem 'Rambo' pelo Radnick Nis.

 Quando Petkovic ingressou na carreira futebolística, em 1987, no time homônimo a sua cidade natal, era apelidado de Rambo pelos companheiros de equipe. Tito já havia falecido e o rodízio de líderes acontecia (a cada um ano o represenante de uma das seis repúblicas era proclamado presidente). Pet ascendeu e chegou a se tornar o jogador profissional mais jovem da Iugoslávia, com 16 anos. Seu bom futebol, o levou de Majdanpek para o Radnick Nis e em seguida para o Estrela Vermelha, equipe fundada por antifascistas durante a Segunda Guerra Mundial. Mesmo ele não estrelando na conquista do último campeonato iugoslavo com a participação das seis nações, no ano seguinte ele ganhou espaço no elenco, pois os principais atletas saíram do país por causa da Guerra Civil Iugoslava. Tal guerra gerou conflitos de enormes proporções no antigo território iugoslavo. Um deles, o Cerco de Sarajevo, na capital da Bósnia, quando a Sérvia (reconhecida pela ONU como sucessora da Iugoslávia) não aceitava reconhecer a independência da Bósnia e da Croácia. Sobre o episódio, o ex-atleta comentou em 2009: "Eu encaro essa separação como um interesse político e econômico. O povo sofreu e houve morte de inocentes".
Jaksic e Petković
Nenad Jacksic e Petkovic, pelo Radnick Nis na Iugoslávia. 

 A guerra instituída prejudicou a carreira do sérvio, que jogou pela seleção iugoslava nas eliminatórias para a Eurocopa de 1992. O país se classificou, mas por via de seus conflitos não pode participar, e seu lugar jogou a Dinamarca, campeã naquele ano. As conflagrações na Iugoslávia atingiam até mesmo a constituição da era Tito, que dizia: "A República Federativa Popular da Iugoslávia é um Estado federal popular de forma republicana, uma comunidade de povos iguais em direitos que, em virtude do direito dos povos de disporem de si mesmos, inclusive o direito de livre separação, exprimiram a sua vontade de viver unidos no Estado federativo" (revista Problemas, 1947, editada por Marighella). Com o Cerco de Sarajevo durando até 1996, Pet foi transferido para o Real Madrid em 1995. Sem muitas chances no clube, foi emprestado a outros times espanhóis, e em 1997, jogando pelo Real Madrid B, foi descoberto pelo Vitória, ao estufar três vezes a rede rubro-negra. Waltercio Fonseca o trouxe pra Toca do Leão, onde ele levou o clube da 14° colocação no Brasileirão para a 6° em cerca de cinco jogos.
Resultado de imagem para petkovic vitoria
Pelo Vitória em 1998.
 Pet construiu sua carreira no Brasil, sendo ídolo do Vitória, Flamengo, Vasco e Fluminense. Questionado no SporTV sobre o esporte na Iugoslávia, Pet disse: "A gente vivia num país socialista, e o esporte estava presente, tinha tudo, e era uma época muito bonita, muito rica em todas essas coisas". Já em entrevista a Ana Maria Braga, Pet ressaltou: "Na verdade quando eu nasci não tinha problema nenhum. A gente vivia num regime socialista, todo mundo bem, todo mundo trabalhando...". Já em entrevista a Revista Vírus, em 2011, ele disse: "A vida socialista é boa porque todo mundo vive bem, os impostos são todos aplicados realmente nos serviços sociais. Todo mundo vive da mesma maneira, tem um bom salário. Mesmo tendo defendido o socialismo nessas ocasiões, o ex-meia diz que não se define sua vertente política: "Eu não me defino porque eu não sou membro de nenhum partido político na Sérvia, nem aqui. Mas eu sou um cidadão que quer o melhor para a cidadania. No mundo ideal, o socialismo é perfeito".



Por: Milton Filho

segunda-feira, 6 de junho de 2016

O futebol em países socialistas: Coreia do Norte

Norte-coreanos em 1966 celebram a vitória em cima da Itália.

 Fundada em 1945, a República Democrática Popular da Coreia do Norte passou a ter uma seleção de futebol logo no mesmo ano, que não tardou e se associou a FIFA. Entre as décadas de 1940 e 1950 seria fundado os primeiros clubes da nação. Dentre os quais viraram forças do futebol local, a exemplo do April 25 (de 1949), o Amrokkang (de 1947) e o Kigwancha (de 1956).

No princípio, era a seleção

 A Seleção Norte-Coreana, foi criada em 1945, no mesmo ano em que o país livrou-se do domínio japonês. Há cerca de vinte anos dali, viria a prestar um importante papel na Copa do Mundo realizada na Inglaterra. Foi na terra da rainha, que a Chollima fez uma grande campanha. Iniciando no grupo de União Soviética, Itália e Chile, começou sendo derrotada por 3 a 0 num jogo de confrades com os soviéticos. Em seguida empatou com os chilenos. O jogo decisivo seria com uma potência do futebol. A Itália que já fora campeã em 1934 veio a campo com Fachetti, Mazzola e cia. limitada. Não foi o bastante para vencer os norte-coreanos, que somando um ponto a menos precisava do triunfo. O time da Inter de Milão, bicampeã em 1964/65 servia com base pros italianos. Com os rivais tendo desperdiçado chances precisas, bastou Pak Do Ik balançar as redes de Albertosi para garantir a vitória. O atleta deixou a bola quicar e chutou no canto direito do arqueiro da Fiorentina. Com a eliminação, os jogadores da seleção italiana foram recebidos com chuva de tomate na volta pra casa.
O atleta norte-coreano Pak Do Ik observa a bola adentrar a meta de Enrico Abertosi.

 Sendo assim, em sua primeira participação em uma Copa do Mundo, a seleção logo chegou as quartas-de-finais. O novo adversário seria a seleção portuguesa, do destemido Eusébio. Os coreanos num árduo trabalho conseguiram fazer não só um, mas três gols nos lusitanos, marcados por Pak, Li e Yang em 25 minutos. O campo era o Goodison Park, estádio do Everton, onde na fase de grupos os portugueses haviam eliminado o Brasil. Dessa vez não foi diferente, pois Eusébio, o Pantera Negra começou com a reação logo aos 27' marcando o primeiro. Marcou mais um antes de terminar a primeira etapa e na volta assinalou mais dois gols. Perto do fim, José Augusto ainda ampliou e a partida terminou em 5 a 3. 
Atletas de 1966 nos dias atuais frente a estátua de Kim II Sung. (Créditos: Futebol na Coréia do Norte)

 Após décadas foi que os norte-coreanos voltaram a disputar uma Copa do Mundo. Desta vez, na África do Sul, a seleção da Coreia do Norte esteve novamente no grupo de duas potências do futebol mundial, o Brasil já penta-campeão e Portugal de Cristiano Ronaldo. O primeiro confronto foi justamente contra os brasileiros, e como na primeira copa, começou com derrota, por 2 a 1, com Maicon e Elano marcando pra canarinho e Yun-Nam Ji pra Chollima. As semelhanças, pararam por aí, pois no jogo seguinte Portugal aplicou incríveis 7 a 0 pra cima da Coreia do Norte. Já no jogo de despedida, a Costa do Marfim os venceu por 3 a 0. 
Selecionado brasileiro e norte-coreano entrando em campo em Joanesburgo. 
 Atualmente a seleção da Coreia do Norte foi eliminada para as Filipinas nas Eliminatórias para a Copa da Rússia em 2018, contanto, já está mirando a Copa da Ásia de 2019 e a do Catar em 2022. Por via disso, contratou o treinador norueguês Jorn Andersen, que assinou um contrato de quatro meses com opção de renovação. O novo comandante da Chollima afirmou: "o futebol pode construir pontes".
O norueguês, ex-jogador de futebol, é o atual treinador da Coreia.
April 25, a potência nacional

 Fundado em julho de 1949, o April 25 possui esse nome em homenagem ao Exército Popular da Coreia, este, criado em 25 de abril, rege o clube que teve como primeiro nome Central Sports Trainning School Sports Team. O clube já ganhou dezesseis campeonatos nacionais além de outras copas disputadas. Porém, é o Pyogyang City que possui maior número de torcedores, e contém dez títulos a menos.
Final da da Torch Cup, na qual o April 25 venceu o Kigwancha por 5 a 1. (Créditos: Futebol na Coréia do Norte)

Os estádios

 A capital Pyongyang abriga em seu seio diversos estádios. Um dos que mais se destacam é o Rungrado May Day Stadium, que é na atualidade o maior estádio do mundo, por ter capacidade de portar 150 mil espectadores. Seu nome é homenagem a ilha onde foi construído e também ao Dia Internacional do Trabalhador (1 de maio). Além dele, ainda estão localizados na cidade o Estádio Kim II Sung, que foi iniciado na época de domínio nipônico para o beisebol. Após duas mudanças de nome, foi dado a ele o nome de Kim II Sung, primeiro líder do país e criador da ideia Juche. Além destes existe também o Yanggakdo, que se aproxima de um rio que corta a cidade.
Estádio Yanggakdo visto de cima. (Créditos: DPRK 360)

O futebol coreano em outros países

 Dos jogadores convocados pra Copa de 2010, três deles jogavam no futebol internacional. Eram eles: An Yong-Hak, do Omiya Ardija-JAP, Hong Yong-Jo do Rostov-RUS e Jong-Tae-Se do Kawasaki Frontale-JAP. Este último ganhou bastante notoriedade e foi até chamado de "Rooney norte-coreano", embora tenha nascido no próprio Japão. Ele ainda tivera a opção de jogar tanto pelos japoneses, de onde é sua nacionalidade, quanto pelos sul-coreanos, de onde são seus avós. Porém, optou pela Coreia do Norte por ter sido educado numa escola do país. Após a Copa do Mundo, jogou na Alemanha pelo Bochum e pelo Colônia, e agora defende o Shimzu S-Pulse do Japão. Além de Jong, a Coreia do Norte possui jogadores em outros países também, como Pak Kwang-ryong no futebol suiço, Choe Song Hyok na Fiorentina e a dupla Ri Chol Song e Jong Chang Bom na Napoli.
Jong Tae-Se.jpg
Jong Tae-Se no jogo contra a Seleção Brasileira em 2010.

 Mas não é só por meio de jogadores que se mostra a internacionalidade da Coreia. No Japão, foi fundado há mais de cinquenta anos o FC Korea, que une atletas de nacionalidade coreana em terras japonesas. A equipe tem como meta para esse ano ascender na Kanto Soccer League. Recentemente o clube participou da Copa do Mundo CONIFA e recebeu medalhas de participação pelo papel desempenhado na competição.
Flâmula do FC Korea na Copa do Mundo CONIFA. (Créditos: Chollima Football Fans - il calcio nella RPD Corea)

O compromisso norte-coreano com o esporte

 A prática do esporte é bem incentivada na Coreia do Norte. Por esse fato e outros, o país tem a admiração do jogador de basquete norte-americano Dennis Rodman, que foi bicampeão da NBA pelo Detroit Pistons e tri pelo Chicago Bulls. O atleta já declarou sobre Kim Jong-un: "O avô dele e o pai dele foram grandes líderes". Kim Jong-un que é amigo do jogador, já salientou que o partido fez um trabalho esforçado para poder desenvolver o trabalho no setor esportivo. O país possui uma Fábrica de Equipamento de Materiais Esportivos, que foi fundada em 1959 e já modernizada trabalha com um rigoroso sistema de controle de qualidade para que os produtos estejam adequados ao padrão internacional.
Secretário-geral do Partido dos Trabalhadores da Coreia, Kim Jong-un em visita a fábrica. (Créditos: Coreia do Norte em foco)

 O futebol feminino da RDPC também é bastante aclamado. As mulheres da Chollima já venceram o Copa da Ásia por três vezes, em 2001, 2003 e 2008, e também a Copa do Mundo sub-20 em 2006 e a sub-17 e 2008. No último mês as norte-coreanas venceram a Copa do Mundo sub-14 em cima do Japão por 3 a 0, e ainda teve a artilheira da competição, a atacante Won Hyang-son, com quinze gols.
Campeãs foram bem recebidas na Coreia do Norte após a conquista no sub-14. (Créditos: DPR Korea Football)


Por: Milton Filho

sexta-feira, 3 de junho de 2016

O futebol em países socialistas: URSS


Seleção francesa na URSS nos anos 50. Ao fundo imagens de Lenin e Stalin. (Créditos: Comunismo en imágens modificadas)

 O incentivo ao esporte sempre se mostrou muito presente nos países socialistas. Cuba e União Soviética por muitas vezes foram países de destaque em competições olímpicas e até mesmo futebolísticas, chegando a ser protagonista até na Copa do Mundo. Mesmo com o futebol tendo surgido na Rússia desde a época czarista, ele se popularizou a partir da década de 1930 com a criação do Campeonato Soviético de Futebol, que teve como primeiro campeão não-russo o Dinamo de Kiev.

Os campeonatos

 Na década de 20, foram fundados na Rússia clubes como o Zenit na cidade de Leningrado (atual São Petesburgo) e o Dínamo Moscou, criado na capital, este fundado pelo comunista e presidente da Tcheka (polícia secreta da URSS), o polonês Felix Dzerzhinsky. O CSKA por sua vez, fora criado em 1911. O CSKA que a época se chamava OLSS foi fundamentado pelo Exército Russo da era czarista e após a Revolução Russa de outubro de 1917 mudou sua sigla para OPPV e passou a ser comandado pelo Exército Vermelho. O futebol soviético teve seu prelúdio em Moscou, com campeonatos amadores. Somente em 1936 viria a surgir um campeonato nacional, o que foi um marco pro esporte do país. Nesse ano ocorreram dois campeonatos, o de outono, vencido pelo Dínamo e o de primavera, vencido pelo Spartak Moscou. Os dois clubes seguiram sendo campeões até 1940, quando o campeonato parou devido a Grande Guerra Patriótica. O mesmo voltaria somente em 1945 e novamente com o Dínamo sendo campeão. Dali em diante, CSKA (a época CDKA) e Torpedo Moscou ganharam espaço no futebol do país e somente em 1961 um clube não-russófono levantaria a taça. O Dínamo de Kiev ganhou o campeonato pela primeira vez e com o fim da URSS em 1991 terminou sendo o maior campeão do país contabilizando treze títulos, seguido de Spartak Moscou e Dínamo.
Dínamo de Moscou, primeiro campeão soviético em 1936, com o fim da URSS só faturaria um nacional, a Copa da Rússia de 1994/95.
 Além de russos e ucranianos, times da Geórgia, Armênia e Bielorússia também conquistaram a competição. O Dínamo Tbilisi, da RSS da Geórgia foi campeão em 1964 e 1978. O Dínamo Minsk de Belarus foi campeão em 1982 e o Arat Erevan da Armênia levantou a taça em 1973. Os estados-nações também tinham seus campeonatos próprios. O próprio Dínamo Minsk foi campeão bielorusso oito vezes e duas vezes da Copa.
O Dínamo Misnk na era soviética. Na arquibancada, ao fundo, uma imagem de Lenin.

As seleções


 O acaso foi diferente com a Seleção Soviética, que era alcunhada de Exército Vermelho. Os soviéticos passaram a ter um selecionado no início da década de 1950, que disputou seu primeiro campeonato em 1952, sendo ele as Olimpíadas Helsinque. A seleção teve como base os jogadores do CSKA (na época CDSA). Nesses Jogos Olímpicos os campeões nas quatro linhas foram os húngaros, que contavam com Ferenc Puskas. A URSS passou na fase preliminar pela Bulgária mas parou em uma nação co-irmã, que tinha uma seleção independente, a Iugoslávia. Após um empate em 5 a 5, outro jogo foi feito e os iugoslavos venceram por 2 a 1, os mesmos chegariam até a fase final. Polônia e Romênia também foram para as olimpíadas de forma independente e ambas decaíram diante da Hungria. Vsevolod Bobrov, foi o destaque soviético nos jogos, marcando oito gols, o atleta também participava de Hóquei no Gelo.
Bellini, do Brasil, e Netto, da URSS: confronto de um time só.
Bellini e Netto apertam as mãos antes de um Brasil 2 x 0 URSS. (Créditos: Imortais do Futebol)

 A Copa do Mundo de 1958, foi a primeira disputada pela União Soviética e também a primeira vencida pela Seleção Brasileira. Na ocasião os soviéticos enfrentaram os dois finalistas. O Brasil na fase de grupos, pro qual perdeu por 2 a 0 e a Suécia nas oitavas, onde cedeu pelo mesmo placar. Uma curiosidade é que a Seleção Soviética foi a primeira a enfrentar Pelé e Garrincha juntos. Em seguida, o "Exército Vermelho" conquistou a Eurocopa de 1960. Antes, em 1956 o selecionado que continha Lev Yashin e Igor Netto conquistara medalha de ouro nas Olimpíadas de Melbourne, e o bicampeonato veio somente em 1988.
euro-1960
Soviéticos campeões da primeira Eurocopa, realizada na França em 1960. (Créditos: Imortais do Futebol)

 A Tchecoslováquia que havia sido vice-campeã europeia em 1960 foi grande protagonista na Copa do Mundo de 1962. Junto com a Iugoslávia, as duas nações socialistas chegaram as semi-finais. Os tchecos iniciaram no grupo do Brasil e os iugoslavos no grupo da URSS. As quatro equipes avançaram de fase, e na semi as duas nações socialistas se enfrentaram, com a Tchecoslováquia vencendo por 3 a 1. Na final, o placar se repetiria, mas de forma reversa, e o campeão seria o Brasil novamente.
Seleção Tcheca, vice-campeã em 1962. (Creditos: Anotando Fútbol)
 Foi em 1966 que a própria Seleção Soviética conseguiu um maior destaque. Em solo inglês liderou o Grupo 4 e junto da Coreia do Norte avançou de fase, tendo vencido os italianos que continha diversos futebolistas renomados. A URSS deixou a Hungria pra trás e decaiu para a Alemanha Ocidental. Na disputa do terceiro lugar enfrentou a Seleção Portuguesa de Eusébio e perdeu pelo placar de 2 a 1, na copa em que os anfitriões seriam os campeões. Há ainda a polêmica de que a União Soviética chegou a ser prejudicada pela arbitragem devido a discordância política com outros países membros da FIFA.
Eusébio e os atletas soviéticos.

  Já em 1982, a Polônia por pouco não foi finalista na Copa do Mundo. Soviéticos não passaram da segunda fase, enquanto tchecos e iugoslavos ficaram na primeira. Em contrapartida os poloneses avançaram até as semifinais, onde foram derrotados pela Itália (futura campeã) por 2 a 0. Na decisão do terceiro lugar, disputada um dia antes da final, a Polônia venceu a França por 3 a 2. Esta foi a famosa Copa que estava prometida a Seleção Brasileira, comandada por Telê Santana.
Na primeira imagem, poloneses x italianos, na segunda, Zico no jogo contra a União Soviética.
Futebol na Rússia, no prelúdio servia para demonstrar virilidade masculina

 No livro, Spartak Moscou - Uma história do time do povo no Estado dos Trabalhadores, conta-se que o futebol na Rússia era um espaço onde se podia expressar a masculinidade e deixá-la fluir. Era algo próprio para camponeses trazidos as cidades grandes pelo êxodo rural. Ou seja, ali se destacava um conceito de "Macho Alpha". O autor Robert Edelman atesta que "o futebol forneceu aos diversos tipos de moscovitas, ricos e pobres, um jeito novo e diferente de mostrarem em um espaço público sua masculinidade, sua força física e sua virilidade". 

 Assim como nos países latinos, o futebol era algo aristocrático na Rússia czarista, e por isso aqueles de classes inferiores, abnegados pelos campos da burguesia, limitavam-se a jogar em espaços públicos, a exemplo das ruas, o que ficou conhecido como 'futebol marginal'. Com a transição para a URSS, o futebol continuou sendo um espaço dominado por homens. E esse futebol marginalizado viria a fundamentar o Spartak, com uma torcida masculinizada, viril e rebelde, formada em sua maioria por trabalhadores, mostrando-se o oposto da masculinização tida no Dínamo Moscou, que tendia a algo mais militarizado. 
Escrete do Krasnaia Presnia, time que antecedeu o Spartak Moscou.

 O Spartak teve como seu primeiro nome Krasnaia Presnia. O primeiro nome, significa vermelho, em alusão a Revolução de 1917, e o segundo é o nome do bairro de origem, onde se tinha muitos trabalhadores braçais, fábricas e onde se via as mazelas sociais. Os irmãos Starotsin, viviam nesse bairro de Presnia, que ficava a margem da sociedade imperial. Por sua vez eles possuíam uma condição social inerente aos vizinhos. Como os mesmos frequentavam escolas mais caras, foram introduzidos ao futebol por esse meio. 

Legado
Rússia x Suécia em setembro de 2015, no estádio do Spartak. A faixa diz: "Orgulhosos de nossa história". (Créditos: O Canto das Torcidas)
 Hoje em dia, as torcidas eslavas se dividem. Algumas reconhecem os feitos soviéticos e outras se mostram totalmente contra, porém, por um aspecto nacionalista como acontece na Polônia e também na própria Rússia com torcidas do CSKA e Spartak demonstrando o anti-antifascismo e do Zenit, onde joga o ex-Vitória, Hulk, cenas de racismo. 

 Em contrapartida há outros grupos de torcedores nesses clubes que manifestam-se como antifascistas e anti-racistas. Times mais subalternos, mas que tiveram importante história no futebol da era soviética como o FC Serp i Molot Moscow hasteiam bandeiras e faixas socialistas nos estádios, diferente de Ultras do CSKA que possuem faixas com o símbolo white-power. 


Por: Milton Filho

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Marinaleda, uma cidade socialista na Espanha

A imagem de Che Guevara ao lado do brasão de armas de Marinaleda.
 A resistência da esquerda na Espanha se notabilizou desde a década de 30 pelos conflitos bélicos da Guerra Civil Espanhola. Porém, o país sofreu com a ditadura de Francisco Franco, que viria a acabar somente na década de 70. Em meio a isso, uma cidade agrária hispânica a qual denomina-se Marinaleda, onde situam-se cerca 3000 habitantes, conviveu com uma ampla reforma a qual o próprio país também estava subordinado, deixando de lado as chagas do franquismo.

 Com a redemocratização da Espanha e a abertura de sindicatos nos campos, os camponeses de Marinaleda iniciaram a reforma agrária em fins dos anos 70 com a tomada de dois latifúndios estabelecidos no governo anterior. Em 1979 o professor e sindicalista Juan Manuel Sánchez Gordillo elegeu-se prefeito e promoveu diversas mudanças no cenário do município. As ruas que outrora exaltavam os militares passaram a homenagear nomes como Che Guevara e Salvador Allende.
Marinaleda, Chrismon
Rua Utopia em Marinaleda.
 Ao longo dos anos, outras fazendas foram sendo ocupadas, o que gerou diversas ações judiciais e ao mesmo tempo a conquista de hectares por parte dos trabalhadores do campo. Na década de 90 criaram-se as cooperativas e fábricas que corroboraram o desenvolvimento da jurisdição da Andaluzia. A partir de 2008, a crise econômica gerada pelos EUA, diversos países da UE foram prejudicados, inclusive na própria Andaluzia, onde as taxas de desemprego batiam 30%. Marinaleda porém seguia estável na empregabilidade.
Marinaleda, Chrismon
Bairro cooperativo de Marinaleda, com campo de futebol, moradias populares e plantações ao fundo.
 As cooperativas costumam ter 400 pessoas trabalhando, e o salário gira em torno de 1200 euros, mesma quantidade recebida por servidores públicos da cidade. O salário dos trabalhadores em geral, independente de cargo é de 47 euros por jornada de trabalho, visto que cada jornada gira em torno de 35 horas semanais. Quanto a moradia, a cidade foi na contramão das imobiliárias e por 15 euros ao mês pode-se obter residência, pois foram construídas 350 habitações de forma cooperativa.
Marinaleda, Chrismon
Bandeiras socialistas e feministas pintadas em um muro da cidade.
O Conselho da Cidade possui onze vereadores, sendo nove deles do IULV-CA (Izquierda Unida Los Verdes- Convocatoria por Andalucia) e dois do PSOE (Partido Socialista Obrero Español). Por meio de assembleias, os políticos tomam suas decisões e o sindicato é que define. Bairro por bairro eles vão atendendo as necessidades da população.

 Isso tudo se deve a gestão de Gordillo como prefeito, que em 1991 conseguiu em parceria com o governo estadual da Andaluzia um lote de 1200 hectares de terra improdutiva, que pertencia a fazenda El Humoso. Dali em diante deu-se início a empreitada, que hoje possui trabalhadores atuando na lavoura e na indústria.

Abaixo, reportagem de uma TV lusitana sobre Marinaleda:
                                       
Por: Milton Filho